| A Utilização do Universo Material Indígena |
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| 24 de abril de 2008 | |
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A Utilização do Universo Material Indígena pelos Colonos e Exploradores nos Dois Primeiros Séculos da Colonização do Brasil A Criação de um Universo Material Brasileiro Como se dá a absorção de parte do universo material indígena pelos primeiros exploradores do território brasileiro? Introdução Este trabalho irá tentar demonstrar, dentro de suas possibilidades, como se dá a absorção de uma parte do universo material indígena pelos primeiros exploradores do território brasileiro. O foco da discussão é a formação de um universo material que já não é nem o indígena e nem o europeu, mas sim um brasileiro. O objetivo então é formar a base para uma futura discussão sobre a formação da cultura, da arte e do design brasileiro, entendendo sua formação como simultânea á do próprio país. É preciso entender o contato do europeu com esses objetos e utensílios, e as necessidades que o levam a isso. É nesse momento que surge, de certo modo, o universo material brasileiro, predominantemente europeu, mas com forte influência do nativo. Mais tarde entrará também a influência do negro, mas nesse primeiro momento a presença do índio é mais forte, principalmente nas terras mais distantes do litoral. É preciso frisar que o meu objetivo, dentro do curso de história, é estudar a formação do estilo, do design e da arte brasileiros, portanto no período abordado, o Brasil colonial, o tema que mais causa interesse é esse novo universo material que surge, pois os outros existentes, europeu ou indígena, não tem sua formação ligada ao povo brasileiro propriamente dito, pois já se encontravam prontos antes da formação de nossa nação. Por isso proponho a realização deste trabalho, mesmo diante da escassez de material que faça menção a esse tipo de relação intercultural. Temos um bom trabalho de Sérgio Buarque de Holanda sobre as monções, que faz detalhados estudos da utilização do conhecimento do nativo para a construção de embarcações fluviais. Temos também outros incontáveis relatos sobre o cotidiano indígena ou do europeu, mas parecem muito raros os relatos sobre utensílios indígenas utilizados pelo europeu. Mas essa escassez também nos faz pensar na importância desse tema, que poderia ser mais explorado, e isso também contribui para que se insista em realizar este trabalho. Apesar de evidentemente incompleto, também devido ao pouco tempo disponível para pesquisa, este trabalho será entregue, mas terá que ter uma continuidade e um aprofundamento posteriores, em História do Brasil Colonial II. Os motivos Os primeiros colonos e os exploradores, que nos primeiros anos da colonização deste território, se aventuram a se distanciar do litoral e entrar no sertão, logo começam a adotar alguns hábitos dos índios, adotam parte da alimentação, por necessidade de se adaptar ao que a terra pode oferecer, tanto nas cidades quanto e principalmente durante as viagens, e adotam parte do universo material desse indígena, pois necessita de tudo que o possa ajudar a prosperar nessa terra tão diferente das européias, aonde surgem novas necessidades e os índios oferecem soluções prontas. Também acontece a miscigenação racial entre o branco e o índio, inevitável devido á grande superioridade numérica indígena nessa época. O fruto dessa miscigenação, o mameluco, já nasce conhecendo os dois universos culturais que o cercam. E é ele que vai realizar boa parte da expansão cultural e territorial. Os hábitos Rapidamente os colonos e os exploradores adotam alguns hábitos dos nativos, como os alimentares, principalmente passando a comer mandioca, alimento até então desconhecido, além das frutas e ervas. O europeu também se vê obrigado a conhecer a língua nativa, e acaba usando-a para dar nomes a lugares, por exemplo, e é claro, aos objetos por ele usados que tem origem nativa. O Universo Material O europeu se vê diante de um ambiente inóspito e desconhecido, e para poder enfrentá-lo tem que adotar utensílios indígenas que já são concebidos para esse fim. É o caso da rede, solução muito superior as européias para dormir, podendo ser levada facilmente e instalada praticamente em qualquer lugar, e do arco e flecha que, se comparado ás armas de fogo da época, era muito mais rapidamente recarregável e silencioso. O europeu também utiliza os cestos e outros utensílios de vime, por serem muito leves, úteis então para o transporte, além de baratos e resistentes. Faltam descrições mais detalhadas dos utensílios levados pelos bandeirantes, por exemplo, em suas viagens, pois os relatos se prendem mais aos principais objetos, sem mesmo citar como eles dormiam (provavelmente na rede). Na verdade devem existir tais relatos, mas ainda não são do conhecimento deste aluno. Boa pesquisa faz Sérgio Buarque de Holanda sobre o desenvolvimento das embarcações fluviais dentro do universo das monções no centro do país. Segundo Holanda, os primeiros núcleos populacionais se localizam no litoral e estão voltados totalmente para a metrópole, nesses lugares os portugueses conseguem recriar, dentro do possível, o ambiente europeu, devido á estabilidade e a presença. Já em Piratininga, por exemplo, por ser mais distante e voltada para o interior, usada como posto avançado para as entradas, voltada então ao movimento e a exploração do interior , tem seu desenvolvimento ligado a essas entradas, quer dizer, para o povo dessa vila, o universo indígena está muito presente. Falta-lhes o negro, pois esse é muito caro para eles, pois a viagem é muito dispendiosa para se chegar até o planalto com escravos. Por isso o paulista tem de ir ao interior buscar os “negros da terra”. E para alcançá-lo precisa usar do que for necessário para se adaptar eficientemente ao meio. Até o início do séc. XVIII a língua predominante era a língua geral. O que demonstra maior proximidade com o indígena do que com a metrópole. O processo de colonização no planalto se dá com maior liberdade no início. Disse Holanda “ É natural que, nesse processo de adaptação, o indígena se torne seu principal iniciador e guia.” , fazendo menção ao fato do colonizador precisar do índio para obter os conhecimentos da terra (página 13). Para adentrar o sertão, os europeus utilizam inicialmente os caminhos abertos pelos nativos, o que impõem um pouco de aprendizagem sobre alguns hábitos deles, como o conhecimento do relevo, das ervas medicinais e da alimentação, assim como não usar sapatos e andar em fila indiana. Além das trilhas indígenas, os sertanistas utilizavam também os caminhos fluviais, e para isso teve que aprender a construir suas embarcações como as dos índios, pois essas já eram adaptadas ao uso especifico de cada tipo de rio, ao passo que as européias não serviam para muitos trechos de rios, além de exigirem técnicas e materiais muito difíceis de se conseguir. É um exemplo a canoa de casca, muito indicada para rios encachoeirados, fácil de ser fabricada e com material também facilmente encontrado, retirando-se toda a casca de um tronco, depois é dada a forma desejada no fogo ou através de paus. Por ser de fácil fabricação, podia ser abandonada quando necessário, e feita outra quando se precisasse novamente. E isso era muito interessante em longas viagens. Usou-se também embarcações de maior porte, feitas um único tronco, se escavando seu miolo, tornando-o côncavo. “Um fato positivo, em todo o caso, é que recorrendo á matéria prima indígena, os primeiros colonos e seus primeiros descendentes também mantiveram a técnica de construção naval dos naturais da terra”, disse Holanda (página 37). Foram mantidas também as técnicas de manejo, como o hábito de remar em pé. Holanda dá muita importância para o problema econômico causado pela intensa utilização dessas técnicas, pois elas usavam grande quantidade de madeira para se fazer um único barco, o que acarretou uma grande diminuição de troncos disponíveis nas proximidades dos centros populacionais, tendo-se que buscá-los cada vez mais longe, o que acarretou numa elevação enorme nos seus preços. Nos final do século XVIII é preciso abandonar essas técnicas e utilizar as européias. Resultados No início da colonização a influência indígena, no interior do território, se faz muito forte. Apesar de muito dessa influência permanecer nos dias atuais, a maior parte acabou se perdendo no período final da colonização, quando há uma busca maior de se voltar a hábitos europeus, além da própria exterminação do índio e da vinda em maior numero do negro, que também terá forte influência na nossa cultura. Mas foi o uso dos conhecimentos indígenas quer possibilitou, ao bandeirante e outros exploradores, a conquista dos próprios índios, o domínio do território e a resistência ao estrangeiro, como na expulsão dos holandeses na Bahia, aonde foram utilizadas técnicas de guerra indígenas. É importante ressaltar também a pouca importância atribuída pelos colonizadores aos utensílios indígenas, visto que estes dificilmente se referem a eles, nem mesmo á rede. Conclusão Parece que o esse tema ainda foi realmente pouco explorado, e as poucas menções que existem aos utensílios indígenas utilizados pelo europeu são apenas pequenas citações dentro de textos que tratam de outro assunto. Talvez falte no Brasil o hábito de se explorar aspectos muito específicos de nossa história. Mas justamente por ser um campo inexplorado, torna-se um assunto ainda mais interessante e instigante. Faltou para esse aluno pesquisar o livro de Alcântara Machado, Vida e Morte do Bandeirante, que parece ter material útil, mas por falta de encontrá-lo, este ficou para a segunda parte da pesquisa. Bem como ainda deve ser realizada uma pesquisa mais profunda, incluindo documentos. Sendo este trabalho, então, a primeira parte de um objetivo maior, o de estabelecer o desenvolvimento do universo material brasileiro, intitulado “O Surgimento do Universo Cultural Brasileiro”, ficam duas questões a serem respondidas: Qual a importância desse estudo para o design brasileiro e qual sua importância para a historiografia brasileira ? Bibliografia: • Holanda, Sérgio Buarque. Monções. Rio de Janeiro, Editora Casa do Estudante, 1945 • Davidoff, Carlos. Bandeirantismo – Verso e Reverso. Coleção Tudo é História. Brasiliense, São Paulo, 1984 Belmonte,------- . No Tempo dos Bandeirantes, 3ª edição. Edições Melhoramentos, -------,------ Escrito para a disciplina História do Brasil Colonial I / Professor István Jancsó Universidade de São Paulo -1º semestre de 2001 |
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