| O Estilo Kadiwéu parte 01 - Os Kadiwéu - Quem são e porque estão aqui |
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| 22 de abril de 2008 | ||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
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Parte I - Os Kadiwéu - Quem são e porque estão aqui Quem são os índios Kadiwéu ? Os Kadiweú são os ultimos remanescentes no Brasil do grupo lingüistico Guaikurú, e também a ultima tribo dos famosos Mbayá-Guaikurú, que se tornaram muito conhecidos como os índios cavaleiros, pois foram os primeiros nativos a dominar a montaria e resistiram bravamente á invasão do europeu. O primeiro grupo Guaikurú registrado foram os Xaraye, em 1540. Os Kadiwéu hoje são donos de suas terras, conquistaram a posse no século passado, após lutarem ao lado dos brasileiros na guerra do Paraguai, mas ainda lutam contra a invasão de fazendeiros, e em 1986, seqüestraram um funcionário da FUNAI para reivindicar seus direitos de posse. São índios dotados de uma cultura muito diferente da dos outros grupos que habitaram o território brasileiro ou mesmo sul americano.(Ribeiro,pg.07)
Se tornaram também muito conhecidos pela sua arte, em especial a pintura corporal, de riqueza e complexidade admiráveis, que hoje em dia é aplicada também em superfícies planas, como couros e cerâmicas, para decoração. Tamanha é sua importância que foram objetos de estudos de Darcy Ribeiro, um dos maiores antropólogos brasileiros, de Claude Levi-Strauss e Guido Boggiani, dois outros importantes antropólogos internacionais entre outros. Foram desenhados por Debret e sua cerâmica foi utilizada recentemente na Alemanha. Mas ainda são, infelizmente, pouco conhecidos entre a população brasileira. Seus remanescentes vivem hoje na região ao sul do pantanal mato-grossense. A principal cidade da região é Nalique. Os Kadiwéu vivem em duas tribos e espalhados por fazendas e estão, segundo aponta Darcy Ribeiro em sua pesquisa, ´´ em processo de perda de sua cultura``.(Ribeiro, pg.17)
Os Mbayá-Guaikurú, grupo ao qual pertencia a tribo dos Kadiwéu adquiriram caracteristicas muito peculiares e próprias por terem uma estrutura social muito diferente da maioria dos indios sul-americanos. Os Mbayá desenvolveram, baseados em sua mitologia e religião, uma sociedade de castas, aonde existiam os nobres, os plebeus e os escravos. Acreditavam serem os preferidos de Deus, e predestinados a dominar os outros povos, pois não tendo domínio da agricultura ou da caça, teriam o direito de pilhar e escravizar. Sua principal fonte de subsistência então foi, tradicionalmente subjugar outros povos, absorvendo inclusive sua cultura e sua população, quer dizer, eram um povo guerreiro e a guerra base da sua sociedade. Desse modo sempre foram muito altivos, nunca admitiram serem dominados, nem mesmo pelo europeu, pois qualquer povo seria inferior a eles. Pintavam o corpo para mostrar sua superioridade, quer seja em relação a outros povos ou dos nobres em relação aos plebeus, já que os nobres usavam a pintura corporal com mais delicadeza e os plebeus com um exagero que tornava suas pinturas bastante desagradáveis. (Santos. Ritos do Índio Brasileiro Xinguano e Kadiwéu. pg. 88) Os Kadiwéu não tinham os mesmos valores que nós a respeito de família, de amor ou moral. Não tinham, por exemplo, apego ás crianças. Portanto seu modo de ver o mundo é completamente diferente do nosso. A pintura é até hoje uma atividade reservada apenas as mulheres, que, alias, tinham um papel tão ou até mais importante que o homem na sociedade, sendo muitas vezes a chefe da família e até mesmo a pessoa mais importante de uma tribo. A mulher nobre normalmente tinha amantes. Já ao homem cabia apenas a guerra, sendo essa também uma enorme fonte de prestígio, assim como a pintura para as mulheres.( Ribeiro, pg. 263) O melhor exemplo disso é Anoã, a maior artista entre os Kadiwéu na época da pesquisa de Darcy Ribeiro, éra também a mais influente pessoa na tribo, já bem velha éra casada com um moço de 25 anos, muito disputado entre as jovens. Foi Anoã que executou a maior parte das figuras utilizadas por Darcy Ribeiro e nesse trabalho também. (Ribeiro, pg. 269) Apesar de ser uma sociedade de castas havia a possibilidade de um escravo tornar-se um, cidadão pois os Kadwéu absorviam, não só a cultura, mas muitas vezes também os próprios povos escravizados, em sua sociedade, principalmente os filhos dos escravos. Então ao mesmo tempo em que subjugavam uma outra tribo também eram influenciados por ela, tanto geneticamente quanto culturalmente.
Por ter uma sociedade quase aristocrática, por ter nobres que faziam questão de ostentar poder e riqueza, os Kadiwéu acabaram desenvolvendo um sistema de pintura corporal tão rico que foi comparado por alguns estudiosos aos brasões de famílias européias. Levi - Strauss chega mesmo a especular se eles não estavam se aproximando de criar um sistema de escrita, possibilidade que infelizmente se perdeu com o enfraquecimento de sua cultura após a chegada do europeu. Especula-se até mesmo a importância erótica destas pinturas. (Levi – Strauss, p.197) Yolanda Lhullier dos Santos, em seu livro Textos-Rito do Índio Brasileiro, faz um estudo destas pinturas como um texto não verbal, chegando a resultados bem complexos, como veremos no item 6. Levi - Strauss também especula sobre a provável antigüidade destas pinturas, traçando paralelos entre elas e a arte marajoara, Santarém, chavin (Peru), e outras culturas da América do Norte. (Levi – Strauss, pg. 198) Criou-se então um sistema em que as figuras são carregadas de significância e valores. Não são complexas apenas as figuras contidas dentro dos desenhos, são complexos também os resultados atingidos por suas combinações, talvez mais complexas que as européias do período renascentista. (Levi – Strauss, pg. 198) Criou-se grafísmos exclusivos, Levi - Strauss coletou cerca de 400 diferentes motivos e afirmou serem todos originais e diferentes uns dos outros. (Levi – Strauss, pg. 195) Os Kadiwéu tinham uma profunda preocupação com seus adornos, e sua arte, que os diferenciava e colocavam então em sua arte e seus utensílios muito valor através da pintura. O Estilo Kadiwéu Faremos aqui uma breve síntese do que poderíamos chamar de estilo Kadiwéu, ou seja, os traços mais comuns e marcantes dos seus desenhos: • O estilo Kadiwéu é marcado pelo dualismo, linha reta e curvas, retângulos e círculos, degraus e espirais, geométrico e orgânico, simétrico e assimétrico, positivo e negativo (Levi - Strauss pg. 200). • Mas há sempre a busca pelo equilíbrio, pelo contrapeso, pela simetria, ainda que diagonal ou incompleta. Eles utilizam praticamente todas as formas geométricas conhecidas por nós • As cores usadas tradicionalmente são o preto azulado do jenipapo, o vermelho do urucu e o branco extraído da palmeira bocaiúva ( Ribeiro pg. 278/279) • Levi-Strauss também destaca, como ponto de partida para sua análise, uma grande semelhança com os brasões de família e principalmente com as figuras de baralhos. Semelhança primeiramente visual, mas também sugerida pela presença da sociedade de castas (Levi – Strauss, pg. 202). • As cartas de baralho se assemelham ao estilo Kadiwéu pela aparência, pelo trabalho complexo dos eixos de simetria, e também por ter seu desenho determinado pela sua função. • Podemos dizer então que o estilo Kadiwéu consiste em conciliar o contraste á simetria, buscando o equilíbrio. • As pinturas corporais mostram a passagem do ´´animal`` para o civilizado, para a cultura, e ainda tem a função de definir a que casta o indivíduo pertence . A pintura demonstra status (Levi - Strauss ,pg. 202). • A complexa arte gráfica dos Mbaia, ou dos Kadiwéu, é um reflexo de sua complexa estrutura social, seus ricos sonhos e grandes angustias. Portanto é muito difícil de ser interpretada sem entender sua sociedade e seus valores. Ou melhor, entendendo sua arte é muito mais fácil entender sua sociedade, pois sua arte reflete sua estrutura social, ou é até mesmo uma descrição dela. Para entendê-los plenamente seria preciso um profundo estudo antropológico, mas na área do design podemos explorar sua arte e retirar dela conceitos úteis.
3. Por que utilizar sua cultura aplicada ao design ? Utilizaremos a arte Kadiwéu aplicada ao design brasileiro como contribuição para que ele se inserir mais concretamente no mercado globalizado e a cultura pós moderna, aonde o maior valor está no conhecimento, na cultura e na qualidade, não só técnica mas também conceitual. Extrairemos então valores artísticos e estéticos da arte Kadiwéu, bem como valores culturais e conceituais. Por isso a cultura Kadiwéu foi escolhida, pois se trata de uma cultura extremamente rica e ainda pouco conhecida e explorada apenas superficialmente, que mostra um enorme potencial de possibilidades para o design. Iremos também explorar seus grafismos e motivos, seu visual e suas cores, que nos levarão a muitas possibilidades de ornamentação, acabamento ou mesmo novas formas, que não serão apenas adaptações das figuras Kadiwéu, mas partirão delas. 4. Análise da arte Kadiwéu Na sua origem os motivos ornamentais Kadiwéu tinham nomenclaturas de acordo com seu tipo ou classe, que, segundo Darcy Ribeiro, explicariam sua origem, significado e função, mas infelizmente esse conhecimento se perdeu antes de ser estudado e hoje, mesmo os Kadiwéu, já não conhecem bem o significado e a origem da sua arte, arte esta que originalmente definia a sua posição social e eram verdadeiras propriedades de família, que não podiam ser usadas por uma pessoa que não pertencesse á família proprietária do motivo ou estilo. Já que os verdadeiros significados da arte Kadiwéu estão perdidos, ou encobertos por uma névoa na memória de sua sociedade, e portanto não podem ser estudados ou levados em consideração o nosso propósito nesse capítulo será o de estudá-las no contexto de nossa cultura, já que é para ela que usaremos o resultado desse trabalho, analisando como eles trabalham suas composições, como vêem o espaço visual e as formas, e posteriormente, como podemos utilizar seus conceitos e seu modo de resolver os problemas da composição. Os desenhos, todos selecionados do livro Kadiwéu, de Darcy Ribeiro, estão aqui dispostos e agrupados segundo caracteristicas em comum e numa ordem de crescimento de complexidade, ou podemos dizer em níveis, apesar de muitos outros agrupamentos serem possiveis. Estas figuras se apresentam em preto em branco pois assim estavam no livro de Darcy Ribeiro, mas este descreve as cores usadas por eles, seriam um preto azulado do jenipapo, o vermelho do urucu e o branco extraído da palmeira bocaiúva ( Ribeiro - Kadiwéu p. 278/279) . E estas figuras eram aplicadas sobre o corpo ou sobre couros de animais, e assim eram usadas como obras ornamentais. 1º Nível
4º Nível
Segundo Yolanda Lhullier (14), esta composição seria um índice.
• Outros padrões desdobrados por Guido Boggiani em 1892, na fig. 23 repare na semelhança com a fig. 07. • Figura 25, exemplo de trabalho artesanal Kadwéu desenvolvido por homens e ao lado o desdobramento do desenho nele entalhado. Os homens se prendiam ao naturalismo e as mulheres ao abstracionismo. Mas os homens não costumavam ser artistas de habilidade. • Figura 26, Desenho Cinético Kadiwéu, exemplo de como eles dominavam os efeitos das figuras para a visão, como o efeito de movimento provocado pelas espirais. Podemos observar o uso desses conhecimentos na fig.20 do nível 6. Podemos notar que a arte kadwéu parte do simples, do funcional, para o complexo e ornamental e nessa passagem encontra sua essência, a busca da beleza através do equilíbrio. Mas porque a busca pela beleza? Porque é essa arte que os torna quem eles são, e assim eles podem expressar seus valores. Sua arte é seu maior motivo de orgulho. Seu maior objetivo então é a valorização, seja da arte, seja do objeto onde esta é aplicada ou seja de sua cultura. Então a maior lição que podemos extrair da análise de sua arte é a de valorizar o produto, valorizar seu desenvolvimento colocando nele um maior valor cultural, com o objetivo claro de valorizar a cultura, seja ela local, nacional ou internacional. Desenvolver um produto tendo um valor cultural conduzindo todo o andamento do seu projeto, para termos como resultado um produto que é totalmente condizente com esse valor, tornar o produto menos descartável e com maior valor diante de produtos comuns. Um produto que é carregado com esses valores, que tem a arte como parte da sua construção é um produto de valor para concorrer com o design internacional, é o que podemos oferecer a mais. Um produto que contém arte e cultura, esse é o objetivo desse trabalho. Quanto ao desenho, podemos extrair um estilo, que pode ser aplicado ao design de produtos, definiríamos esse estilo em alguns aspéctos: Predominância da linha diagonal. 6.Textos objetos No livro Textos-Rito do Índio Brasileiro (14), Yolanda Lhullier faz uma análise da arte Kadiwéu como texto não verbal ou texto objeto. Segundo ela podemos decodificar uma mensagem através de cada pintura. Através de cada símbolo identificado dentro de uma figura da arte Kadiwéu temos um significado, unindo os vários símbolos temos uma frase ou mesmo um texto. Veremos abaixo a transcrição de uma das análises da autora. A figura analisada foi desenhada por Guido Boggiani em 1892:
Pintura facial de mulher caduvea – ( a cunhada de Joãozinho). Segundo desenho de Guido Boggiani. Levantamento dos símbolos utilizados: Labiríntica: seja de forma de scapula ou de convergência; linha ondulada, demarcação temporal, intervalo, pontos, demarcação posicional. Carácter evidenciado: mês de julho. 2) Labirinto de convergência: também é considerado um elemento altamente religioso e de origem remotíssima. Neste caso é indicativo do tipo de mensagem a ser transmitida e do ritual religioso a ser observado. A convergência para o ponto central está sempre ligado aos ritos de fertilidade. 3) Linha ondulada: um dos primeiros sinais utilizados no campo editorial. Neste caso, juntamente com outros símbolos, indica uma ação em andamento, com sentido repetitivo. 4) Faixa oblíqua: índice de demarcação temporal tanto a comum (como uma banda simples), como a múltipla, que são usadas para marcação do calendário sobre uma superfície visual. Encontrada em grande quantidade nos mais diversos quadrantes, sempre tem este específico sentido e, aqui, o encontramos mais evidenciado por tratar-se de uma mensagem na qual o tempo é bem preciso, não podendo sofrer atraso ou avanço. 5) Sentido de intervalo: seccionamento da ondulação contida na fixa oblíqua temporal. Trata-se de um dos símbolos mais difíceis de serem identificados, além da origem remota. Já Pitágoras o destacava como um elemento primordial dentro do vasto campo da Simbólica, sendo que não corresponde a unidade de tempo fixa, mas adquire seu valor interválico segundo as circunstâncias. Tornar-se daí difícil proceder a sua identificação, porém neste texto é facilitada a sua interpretação, pois sendo clara a mensagem contida na informação, aparece como um intervalo de um verão a outro. 6) O ponto: primeiro sinal gráfico a aparecer na História da Editoração. Encontra-se ligado aos antigos rituais de fertilidade e aqui mantém a sua simbologia em forma clara e originária. 7) Linha reta: neste texto em estudo aparece com o seu sentido primordial, sendo, como o é, um dos símbolos gráficos mais antigos, já que seu aparecimento no 2º momento da História da Editoração se faz notar. Possui o valor específico de Lei ou Determinação inelutável. 8) Demarcação posicional: não possuindo um significado próprio adquire valor simbólico segundo as circunstâncias em que se encontra. Neste caso indica claramente o lado posicional ou seja o noroeste onde a plantação deverá ser efetuada. Temos conhecimento que a pintura facial dos indígenas sul-americanos quase sempre é de ordem temporal, ligada aos vários sistemas de calendário, cujos pontos cardeais são representados pela fronte, queixo e ouvidos que indicam as direções: norte, sul, leste e oeste. De acordo com o significado que possuem podemos fazer a leitura da seguinte informação: Cada mês de julho procederemos, impreterivelmente ao plantio do lado noroeste de nosso povoado e as suas festas decorrentes. O caráter evidenciado na análise além de possuir um simbolismo próprio, acrescenta à sua carga informativa um outro elemento: o da datação, de bastante importância, principalmente tratando-se do plantio que deve ser feito numa época bem determinada. Neste texto possuímos a data com exatidão, pois encontra-se o sinal gráfico representativo da Lua e sua influência ``. O Projeto Bairro Amarelo Uma dupla de arquitetos brasileiros, Francisco Fanucci e Marcelo Ferraz, ganhou um concurso para fazer a remodelagem de parte de um bairro da cidade de Hellersdorf, na Alemanha. Este foi um assunto da edição Nº 80 de out./nov. de 1998 da revista Arquitetura e Construção. Alem de todo o trabalho arquitetónico, os arquitetos introduziram uma série de obras de arte ao conjunto habitacional. Os grafismos Kadiwéu foram utilizados em cerâmicas de revestimento, utilizadas dentro dos prédios, dando um aspecto original e exótico. A cerâmica foi desenhada pelas próprias índias Kadiwéu e confeccionada em Colônia, na Alemanha Observamos nesses trabalhos os grafismos Kadiwéu, já um pouco diferentes dos encontrados no inicio do século, e o uso das cores, que já não se limitam as originais usadas por esse povo, já são mais variadas e claras, mas ainda são muito próximas das antigas. ![]() Vemos aqui a aplicação da cerâmica Kadiwéu dentro dos prédios. Figura extraída da revista Arquitetura e Construção de out./nov. 1998 ![]() Índias Kadiwéu com seus trabalhos, em Hellersdorf, Alemanha .Figura extraída da revista Arquitetura e Construção de out./nov. 1998
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