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O Estilo Kadiwéu parte 01 - Os Kadiwéu - Quem são e porque estão aqui PDF Imprimir E-mail
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22 de abril de 2008

Parte I - Os Kadiwéu - Quem são e porque estão aqui

Quem são os índios Kadiwéu ?


Os Kadiweú são os ultimos remanescentes no Brasil do grupo lingüistico Guaikurú, e também a ultima tribo dos famosos Mbayá-Guaikurú, que se tornaram muito conhecidos como os índios cavaleiros, pois foram os primeiros nativos a dominar a montaria e resistiram bravamente á invasão do europeu. O primeiro grupo Guaikurú registrado foram os Xaraye, em 1540. Os Kadiwéu hoje são donos de suas terras, conquistaram a posse no século passado, após lutarem ao lado dos brasileiros na guerra do Paraguai, mas ainda lutam contra a invasão de fazendeiros, e em 1986, seqüestraram um funcionário da FUNAI para reivindicar seus direitos de posse. São índios dotados de uma cultura muito diferente da dos outros grupos que habitaram o território brasileiro ou mesmo sul americano.(Ribeiro,pg.07)


Fig.1 Carga de cavalaria Guaikurú, desenho de J.B. Debret 1834 extraído do livro de Darcy Ribeiro

Se tornaram também muito conhecidos pela sua arte, em especial a pintura corporal, de riqueza e complexidade admiráveis, que hoje em dia é aplicada também em superfícies planas, como couros e cerâmicas, para decoração.

Tamanha é sua importância que foram objetos de estudos de Darcy Ribeiro, um dos maiores antropólogos brasileiros, de Claude Levi-Strauss e Guido Boggiani, dois outros importantes antropólogos internacionais entre outros. Foram desenhados por Debret e sua cerâmica foi utilizada recentemente na Alemanha. Mas ainda são, infelizmente, pouco conhecidos entre a população brasileira.

Seus remanescentes vivem hoje na região ao sul do pantanal mato-grossense. A principal cidade da região é Nalique. Os Kadiwéu vivem em duas tribos e espalhados por fazendas e estão, segundo aponta Darcy Ribeiro em sua pesquisa, ´´ em processo de perda de sua cultura``.(Ribeiro, pg.17)

Ainda mantém boa parte de sua cultura, principalmente a arte, pois essa pode ser usada, e de fato vem sendo cada vez mais, para seu sustento, sendo vendida a turistas e visitantes. Infelizmente eles já não dominam o significado de grande parte de sua arte, menos ainda da origem e evolução desta, eles apenas reproduzem os modelos.


Fig.2 Mulher Xaraye, gravura de Ulrich Schimidel, 1540
Extraído do livro de Darcy Ribeiro
Quais as principais caracteristicas da cultura Kadiwéu?

Fig.3 Mulher Kadiwéu pintando um couro.
Extraído do livro de Darcy Ribeiro

Os Mbayá-Guaikurú, grupo ao qual pertencia a tribo dos Kadiwéu adquiriram caracteristicas muito peculiares e próprias por terem uma estrutura social muito diferente da maioria dos indios sul-americanos. Os Mbayá desenvolveram, baseados em sua mitologia e religião, uma sociedade de castas, aonde existiam os nobres, os plebeus e os escravos.

Acreditavam serem os preferidos de Deus, e predestinados a dominar os outros povos, pois não tendo domínio da agricultura ou da caça, teriam o direito de pilhar e escravizar. Sua principal fonte de subsistência então foi, tradicionalmente subjugar outros povos, absorvendo inclusive sua cultura e sua população, quer dizer, eram um povo guerreiro e a guerra base da sua sociedade. Desse modo sempre foram muito altivos, nunca admitiram serem dominados, nem mesmo pelo europeu, pois qualquer povo seria inferior a eles. Pintavam o corpo para mostrar sua superioridade, quer seja em relação a outros povos ou dos nobres em relação aos plebeus, já que os nobres usavam a pintura corporal com mais delicadeza e os plebeus com um exagero que tornava suas pinturas bastante desagradáveis. (Santos. Ritos do Índio Brasileiro Xinguano e Kadiwéu. pg. 88)

Os Kadiwéu não tinham os mesmos valores que nós a respeito de família, de amor ou moral. Não tinham, por exemplo, apego ás crianças. Portanto seu modo de ver o mundo é completamente diferente do nosso. A pintura é até hoje uma atividade reservada apenas as mulheres, que, alias, tinham um papel tão ou até mais importante que o homem na sociedade, sendo muitas vezes a chefe da família e até mesmo a pessoa mais importante de uma tribo. A mulher nobre normalmente tinha amantes. Já ao homem cabia apenas a guerra, sendo essa também uma enorme fonte de prestígio, assim como a pintura para as mulheres.( Ribeiro, pg. 263) O melhor exemplo disso é Anoã, a maior artista entre os Kadiwéu na época da pesquisa de Darcy Ribeiro, éra também a mais influente pessoa na tribo, já bem velha éra casada com um moço de 25 anos, muito disputado entre as jovens. Foi Anoã que executou a maior parte das figuras utilizadas por Darcy Ribeiro e nesse trabalho também. (Ribeiro, pg. 269)

Apesar de ser uma sociedade de castas havia a possibilidade de um escravo tornar-se um, cidadão pois os Kadwéu absorviam, não só a cultura, mas muitas vezes também os próprios povos escravizados, em sua sociedade, principalmente os filhos dos escravos. Então ao mesmo tempo em que subjugavam uma outra tribo também eram influenciados por ela, tanto geneticamente quanto culturalmente.


Fig.04 Anoã, foto extraída do livro de Darcy Ribeiro

Por ter uma sociedade quase aristocrática, por ter nobres que faziam questão de ostentar poder e riqueza, os Kadiwéu acabaram desenvolvendo um sistema de pintura corporal tão rico que foi comparado por alguns estudiosos aos brasões de famílias européias. Levi - Strauss chega mesmo a especular se eles não estavam se aproximando de criar um sistema de escrita, possibilidade que infelizmente se perdeu com o enfraquecimento de sua cultura após a chegada do europeu. Especula-se até mesmo a importância erótica destas pinturas. (Levi – Strauss, p.197) Yolanda Lhullier dos Santos, em seu livro Textos-Rito do Índio Brasileiro, faz um estudo destas pinturas como um texto não verbal, chegando a resultados bem complexos, como veremos no item 6.

Levi - Strauss também especula sobre a provável antigüidade destas pinturas, traçando paralelos entre elas e a arte marajoara, Santarém, chavin (Peru), e outras culturas da América do Norte. (Levi – Strauss, pg. 198)

Criou-se então um sistema em que as figuras são carregadas de significância e valores. Não são complexas apenas as figuras contidas dentro dos desenhos, são complexos também os resultados atingidos por suas combinações, talvez mais complexas que as européias do período renascentista. (Levi – Strauss, pg. 198) Criou-se grafísmos exclusivos, Levi - Strauss coletou cerca de 400 diferentes motivos e afirmou serem todos originais e diferentes uns dos outros. (Levi – Strauss, pg. 195)

Os Kadiwéu tinham uma profunda preocupação com seus adornos, e sua arte, que os diferenciava e colocavam então em sua arte e seus utensílios muito valor através da pintura.

O Estilo Kadiwéu

Faremos aqui uma breve síntese do que poderíamos chamar de estilo Kadiwéu, ou seja, os traços mais comuns e marcantes dos seus desenhos:

• O estilo Kadiwéu é marcado pelo dualismo, linha reta e curvas, retângulos e círculos, degraus e espirais, geométrico e orgânico, simétrico e assimétrico, positivo e negativo (Levi - Strauss pg. 200).

• Mas há sempre a busca pelo equilíbrio, pelo contrapeso, pela simetria, ainda que diagonal ou incompleta. Eles utilizam praticamente todas as formas geométricas conhecidas por nós

• As cores usadas tradicionalmente são o preto azulado do jenipapo, o vermelho do urucu e o branco extraído da palmeira bocaiúva ( Ribeiro pg. 278/279)

• Levi-Strauss também destaca, como ponto de partida para sua análise, uma grande semelhança com os brasões de família e principalmente com as figuras de baralhos. Semelhança primeiramente visual, mas também sugerida pela presença da sociedade de castas (Levi – Strauss, pg. 202).

• As cartas de baralho se assemelham ao estilo Kadiwéu pela aparência, pelo trabalho complexo dos eixos de simetria, e também por ter seu desenho determinado pela sua função.

• Podemos dizer então que o estilo Kadiwéu consiste em conciliar o contraste á simetria, buscando o equilíbrio.

• As pinturas corporais mostram a passagem do ´´animal`` para o civilizado, para a cultura, e ainda tem a função de definir a que casta o indivíduo pertence . A pintura demonstra status (Levi - Strauss ,pg. 202).

• A complexa arte gráfica dos Mbaia, ou dos Kadiwéu, é um reflexo de sua complexa estrutura social, seus ricos sonhos e grandes angustias. Portanto é muito difícil de ser interpretada sem entender sua sociedade e seus valores. Ou melhor, entendendo sua arte é muito mais fácil entender sua sociedade, pois sua arte reflete sua estrutura social, ou é até mesmo uma descrição dela. Para entendê-los plenamente seria preciso um profundo estudo antropológico, mas na área do design podemos explorar sua arte e retirar dela conceitos úteis.


Fig.5 Jovem Kadiwéu, desenho de Guido Boggiani, 1892, extraído do livro de Darcy Ribeiro

3. Por que utilizar sua cultura aplicada ao design ?

Utilizaremos a arte Kadiwéu aplicada ao design brasileiro como contribuição para que ele se inserir mais concretamente no mercado globalizado e a cultura pós moderna, aonde o maior valor está no conhecimento, na cultura e na qualidade, não só técnica mas também conceitual. Extrairemos então valores artísticos e estéticos da arte Kadiwéu, bem como valores culturais e conceituais. Por isso a cultura Kadiwéu foi escolhida, pois se trata de uma cultura extremamente rica e ainda pouco conhecida e explorada apenas superficialmente, que mostra um enorme potencial de possibilidades para o design.

O que podemos ter de resultado para o design no estudo deste povo é algo que vai na direção de buscar um maior valor para os nosso produtos, buscar um desenvolvimento de projeto mais profundo que levará em conta um maior numero de fatores e valores. Tendo sempre em vista o uso e o valor do objeto, ou seja, buscar introduzir mais valor intrínseco aos objetos industrializados.

Iremos também explorar seus grafismos e motivos, seu visual e suas cores, que nos levarão a muitas possibilidades de ornamentação, acabamento ou mesmo novas formas, que não serão apenas adaptações das figuras Kadiwéu, mas partirão delas.

4. Análise da arte Kadiwéu

Na sua origem os motivos ornamentais Kadiwéu tinham nomenclaturas de acordo com seu tipo ou classe, que, segundo Darcy Ribeiro, explicariam sua origem, significado e função, mas infelizmente esse conhecimento se perdeu antes de ser estudado e hoje, mesmo os Kadiwéu, já não conhecem bem o significado e a origem da sua arte, arte esta que originalmente definia a sua posição social e eram verdadeiras propriedades de família, que não podiam ser usadas por uma pessoa que não pertencesse á família proprietária do motivo ou estilo.

Já que os verdadeiros significados da arte Kadiwéu estão perdidos, ou encobertos por uma névoa na memória de sua sociedade, e portanto não podem ser estudados ou levados em consideração o nosso propósito nesse capítulo será o de estudá-las no contexto de nossa cultura, já que é para ela que usaremos o resultado desse trabalho, analisando como eles trabalham suas composições, como vêem o espaço visual e as formas, e posteriormente, como podemos utilizar seus conceitos e seu modo de resolver os problemas da composição.

Os desenhos, todos selecionados do livro Kadiwéu, de Darcy Ribeiro, estão aqui dispostos e agrupados segundo caracteristicas em comum e numa ordem de crescimento de complexidade, ou podemos dizer em níveis, apesar de muitos outros agrupamentos serem possiveis. Estas figuras se apresentam em preto em branco pois assim estavam no livro de Darcy Ribeiro, mas este descreve as cores usadas por eles, seriam um preto azulado do jenipapo, o vermelho do urucu e o branco extraído da palmeira bocaiúva ( Ribeiro - Kadiwéu p. 278/279) . E estas figuras eram aplicadas sobre o corpo ou sobre couros de animais, e assim eram usadas como obras ornamentais.

1º Nível

• Formas básicas e simples, com uma noção simples de equilíbrio e regularidade/ continuidade.
• Composição simples e aberta, ou seja, infinita.
• Notar o símbolo que se assemelha a um coração na fig. 01, que para eles não deve ter um significado especial, mas coincidentemente é um símbolo com forte significado para nós.
• A fig. 02 mostra uma simples repetição do mesmo motivo, como na fig. 01, mas alternado, mostrando uma primeira forma de articulação da composição.
• Estas espécies de motivos são do tipo mais simples encontrado.
• Posteriormente serão introduzidas curvas e outros elementos que darão maior riqueza a composição.


2º Nível



• Aqui vemos as formas circulares que saíram das composições infinitas e começam a se fechar se tornando uma unidade, a fig. 05 se mostra ainda perdida, mas ao se acrescentar a noção dos quadrantes, como na fig. 04, se encontra o equilíbrio.
• As composições começam a se tornar simétricas e ganham unidade.
• Surge o contraste entre o cheio e o vazio e a composição entre reto e curvo.
• Ao enquadrar as linhas curvas dentro de espaços retilíneos, os Kadiwéu começam a definir seu estilo.


3º Nível

• As figuras passam a ter composição mais elaborada, deixando de ter uma única direção, com um equilíbrio dinâmico e a introdução da simetria.
• Ainda são relativamente simples, mas tem uma composição elaborada, e não apenas a repetição do mesmo motivo.
• Ainda podem estar um pouco desordenadas, perdidas, por faltar um pouco de equilíbrio, como na fig. 09
• As composições se fecham, tendo então mais unidade.
• As linhas de divisão dos quatro quadrantes passam a ser utilizadas, mais ainda podem estar ocultas, ou seja, serem apenas imaginárias como nas fig. 09 e 10. Estas linhas de construção se tornarão importantes para o equilíbrio e desenvolvimento da arte Kadiwéu, como veremos mais adiante.
• As linhas retas trazem uma composição mais complexa e bem resolvida e com a simetria dinâmica em diagonal, como as fig. 07 e 08, que são o nível mais comum da arte Kadiwéu, ou seja, o estilo Kadiwéu. Neste ponto temos uma aproximação com o estilo Art Déco, pela simplicidade, força e concretismo das formas, equilíbrio e contraste e também pela inspiração asteca do Art Déco .
• Outra característica marcante destes desenhos é o contraste entre dois planos bem definidos, negativo e positivo.

4º Nível

• Observamos aqui a importância das linhas de construção que dividem o espaço do desenho em quatro partes, ou quadrantes, que dão equilíbrio á composição, mesmo quando invisíveis.
• Temos aqui um estilo variante, de figuras fortes, com predominância de linhas curvas, com objetivos bem definidos e resultados claros, desenhadas praticamente só com linhas, sem massas, mas linhas grossas, que tornam a figura maciça.
• São composições mais elaboradas, com simetria complexa. A fig. 11 tem uma perfeita simetria vertical, mas a simetria horizontal é invertida, ou seja, o que está para cima na direita está para baixo na esquerda. Já a fig. 12 tem uma simetria vertical simples, enquanto a fig. 13 e a 14 tem uma simetria diagonal invertida.


5º Nível

• Estas são figuras de grande complexidade e quantidade de linhas, mas um pouco confusas, perdidas, sem noção de simetria e equilíbrio em algumas partes. Estas figuras parecem ter um objetivo diferente das anteriores.
• Percebe-se que o objetivo e a composição mais ordenados são essenciais para tornar agradáveis para nós esses desenhos.
• Temos aqui desenhos mais livres, que nos remetem á costura, estes desenhos tem a preocupação com equilíbrio e simetria em alguns trechos (como na maior parte das fig. 15 e 17), mas não em toda a composição (as fig. 16 e 18 quase não tem simetria ou equlíbrio).

6º Nível

• Aqui vemos composições bem resolvidas, com simetrias perfeitas e objetivos claros, são desenhos que expressam o gosto e o requinte Kadiwéu.
• A fig. 19, além de ter uma perfeita simetria diagonal inversa, é perfeitamente equilibrada, tem uma perfeita unidade, com linhas delicadas e muito bem resolvidas. O mesmo acontece com a fig. 21, apenas não sendo totalmente fechada, nota-se também a inclinação da fig. 21, da direita para a esquerda, o que nos incomoda um pouco, pois temos a preferência de traçarmos da esquerda para a direita, provavelmente por causa de nossa escrita, que nos condiciona (Dondis- Sintaxe da Linguagem Visual) .
• A fig. 20 é bastante complexa e nos parece a principio um pouco perdida pois tem um objetivo mais elaborado e difícil de concretizar , é uma figura que sugere continuidade, como se as linhas não acabassem, e sugere movimento, através das espirais que terminam dando a volta e refazendo o mesmo caminho, ou seja, toda a figura está em movimento continuo, mostrando o domínio que tinham os Kadiwéu sobre o desenho ( ver fig. 26). Notar o como a espiral termina num símbolo semelhante ao Yin Yang.
• Todas estas figuras mostram uma sofisticação e riqueza de detalhes extremamente bem resolvidas.
• Este é ,para esta pesquisa, o ultimo nível da arte Kadiwéu, é o ponto máximo que eles chegaram na sofisticação de seu estilo.

 

 

 


Outros Exemplos
• Exemplo de desdobramento de motivo ornamental Kadiwéu, registrado por Guido Boggiani em 1892.

Segundo Yolanda Lhullier (14), esta composição seria um índice.

• Outros padrões desdobrados por Guido Boggiani em 1892, na fig. 23 repare na semelhança com a fig. 07.

• Figura 25, exemplo de trabalho artesanal Kadwéu desenvolvido por homens e ao lado o desdobramento do desenho nele entalhado. Os homens se prendiam ao naturalismo e as mulheres ao abstracionismo. Mas os homens não costumavam ser artistas de habilidade.

• Figura 26, Desenho Cinético Kadiwéu, exemplo de como eles dominavam os efeitos das figuras para a visão, como o efeito de movimento provocado pelas espirais. Podemos observar o uso desses conhecimentos na fig.20 do nível 6.


5. Conclusão da análise

Podemos notar que a arte kadwéu parte do simples, do funcional, para o complexo e ornamental e nessa passagem encontra sua essência, a busca da beleza através do equilíbrio.

Mas porque a busca pela beleza? Porque é essa arte que os torna quem eles são, e assim eles podem expressar seus valores. Sua arte é seu maior motivo de orgulho. Seu maior objetivo então é a valorização, seja da arte, seja do objeto onde esta é aplicada ou seja de sua cultura.

Então a maior lição que podemos extrair da análise de sua arte é a de valorizar o produto, valorizar seu desenvolvimento colocando nele um maior valor cultural, com o objetivo claro de valorizar a cultura, seja ela local, nacional ou internacional. Desenvolver um produto tendo um valor cultural conduzindo todo o andamento do seu projeto, para termos como resultado um produto que é totalmente condizente com esse valor, tornar o produto menos descartável e com maior valor diante de produtos comuns.

Um produto que é carregado com esses valores, que tem a arte como parte da sua construção é um produto de valor para concorrer com o design internacional, é o que podemos oferecer a mais. Um produto que contém arte e cultura, esse é o objetivo desse trabalho.

Quanto ao desenho, podemos extrair um estilo, que pode ser aplicado ao design de produtos, definiríamos esse estilo em alguns aspéctos:

 Predominância da linha diagonal.
 Simetria e equilíbrio diagonais.
 Contraste, quer seja de formas, cores, linhas, planos ou movimento contra estabilidade.

6.Textos objetos

No livro Textos-Rito do Índio Brasileiro (14), Yolanda Lhullier faz uma análise da arte Kadiwéu como texto não verbal ou texto objeto. Segundo ela podemos decodificar uma mensagem através de cada pintura. Através de cada símbolo identificado dentro de uma figura da arte Kadiwéu temos um significado, unindo os vários símbolos temos uma frase ou mesmo um texto.

Veremos abaixo a transcrição de uma das análises da autora. A figura analisada foi desenhada por Guido Boggiani em 1892:


Fig. 27 A cunhada de Joãozinho, figura extraída do livro de Yolanda Lhulier dos Santos
´´ Leitura de um Texto-Objeto
a Pintura Corporal e Facial

Pintura facial de mulher caduvea – ( a cunhada de Joãozinho). Segundo desenho de Guido Boggiani.
Concentração do trabalho: queixo e maxilar direito aproximando-se das maçãs do rosto.
Direção: Sudeste com prolongamento em direção norte
Em evidência: Utilizando o rosto em diagramação semelhante a dos pontos cardeais, destaca-se a disposição do traçado gráfico na região oeste com uma leve tendência para o lado norte, localizando-se no olho esquerdo e suas adjacências com mais intensidade, Nota-se claramente a procura de uma situação de equilíbrio.

Levantamento dos símbolos utilizados: Labiríntica: seja de forma de scapula ou de convergência; linha ondulada, demarcação temporal, intervalo, pontos, demarcação posicional.

Carácter evidenciado: mês de julho.
Seguindo a ordem sequencial do aparecimento dos símbolos neste texto de editoração não-verbal e procedendo a leitura em direção sudeste-norte, obtivemos os seguintes dados:
1) Scapula: antiga forma de pavimentação de origem provavelmente mediterrânea, porém difere do mosaico que não possui qualquer qualidade editorial. Utilizado como ponto de apoio por determinados rituais, indica tanto pela sua informação de tão larga amplidão como pelo seu uso repetido que se trata de uma mensagem religiosa.

2) Labirinto de convergência: também é considerado um elemento altamente religioso e de origem remotíssima. Neste caso é indicativo do tipo de mensagem a ser transmitida e do ritual religioso a ser observado. A convergência para o ponto central está sempre ligado aos ritos de fertilidade.

3) Linha ondulada: um dos primeiros sinais utilizados no campo editorial. Neste caso, juntamente com outros símbolos, indica uma ação em andamento, com sentido repetitivo.

4) Faixa oblíqua: índice de demarcação temporal tanto a comum (como uma banda simples), como a múltipla, que são usadas para marcação do calendário sobre uma superfície visual. Encontrada em grande quantidade nos mais diversos quadrantes, sempre tem este específico sentido e, aqui, o encontramos mais evidenciado por tratar-se de uma mensagem na qual o tempo é bem preciso, não podendo sofrer atraso ou avanço.

5) Sentido de intervalo: seccionamento da ondulação contida na fixa oblíqua temporal. Trata-se de um dos símbolos mais difíceis de serem identificados, além da origem remota. Já Pitágoras o destacava como um elemento primordial dentro do vasto campo da Simbólica, sendo que não corresponde a unidade de tempo fixa, mas adquire seu valor interválico segundo as circunstâncias. Tornar-se daí difícil proceder a sua identificação, porém neste texto é facilitada a sua interpretação, pois sendo clara a mensagem contida na informação, aparece como um intervalo de um verão a outro.

6) O ponto: primeiro sinal gráfico a aparecer na História da Editoração. Encontra-se ligado aos antigos rituais de fertilidade e aqui mantém a sua simbologia em forma clara e originária.

7) Linha reta: neste texto em estudo aparece com o seu sentido primordial, sendo, como o é, um dos símbolos gráficos mais antigos, já que seu aparecimento no 2º momento da História da Editoração se faz notar. Possui o valor específico de Lei ou Determinação inelutável.

8) Demarcação posicional: não possuindo um significado próprio adquire valor simbólico segundo as circunstâncias em que se encontra. Neste caso indica claramente o lado posicional ou seja o noroeste onde a plantação deverá ser efetuada. Temos conhecimento que a pintura facial dos indígenas sul-americanos quase sempre é de ordem temporal, ligada aos vários sistemas de calendário, cujos pontos cardeais são representados pela fronte, queixo e ouvidos que indicam as direções: norte, sul, leste e oeste. De acordo com o significado que possuem podemos fazer a leitura da seguinte informação: Cada mês de julho procederemos, impreterivelmente ao plantio do lado noroeste de nosso povoado e as suas festas decorrentes.

O caráter evidenciado na análise além de possuir um simbolismo próprio, acrescenta à sua carga informativa um outro elemento: o da datação, de bastante importância, principalmente tratando-se do plantio que deve ser feito numa época bem determinada.

Neste texto possuímos a data com exatidão, pois encontra-se o sinal gráfico representativo da Lua e sua influência ``.

O Projeto Bairro Amarelo

Uma dupla de arquitetos brasileiros, Francisco Fanucci e Marcelo Ferraz, ganhou um concurso para fazer a remodelagem de parte de um bairro da cidade de Hellersdorf, na Alemanha. Este foi um assunto da edição Nº 80 de out./nov. de 1998 da revista Arquitetura e Construção.

Alem de todo o trabalho arquitetónico, os arquitetos introduziram uma série de obras de arte ao conjunto habitacional.

Os grafismos Kadiwéu foram utilizados em cerâmicas de revestimento, utilizadas dentro dos prédios, dando um aspecto original e exótico. A cerâmica foi desenhada pelas próprias índias Kadiwéu e confeccionada em Colônia, na Alemanha

Observamos nesses trabalhos os grafismos Kadiwéu, já um pouco diferentes dos encontrados no inicio do século, e o uso das cores, que já não se limitam as originais usadas por esse povo, já são mais variadas e claras, mas ainda são muito próximas das antigas.


Vemos aqui a aplicação da cerâmica Kadiwéu dentro dos prédios. Figura extraída da revista Arquitetura e Construção de out./nov. 1998


Índias Kadiwéu com seus trabalhos, em Hellersdorf, Alemanha .Figura extraída da revista Arquitetura e Construção de out./nov. 1998
Comentários
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Karaí Mbaretê  - cultura do chaco   |189.10.52.xxx |2009-02-19 20:50:06
Maravilhosa a reportagem/ensaio sobre a cultura guaikurú e os kadiwéu de Porto Murtimho/MS.
Yuri Bittar  - Que ótimo!     |200.144.94.xxx |2009-02-20 10:20:13
Fico feliz que meu trabalho impressione assim ! Abraço!
Anônimo   |189.32.15.xxx |2009-03-09 22:10:14
adorei gostei
Anônimo   |189.32.15.xxx |2009-03-09 22:10:37
achei muito legal pem complexo
Anônimo   |200.163.166.xxx |2009-05-26 22:04:36
legal
Selma Lunardi   |200.199.132.xxx |2009-06-11 23:00:39
Gostei muito da pesquisa. Tem uma parte dois?
Anônimo   |201.14.112.xxx |2009-06-18 18:41:50
linda a pesquisa e bem explicada ADOEREI
joquim pereira  - é issu ai   |201.14.112.xxx |2009-06-18 18:52:20
muita criatividade e cultura , e isso que os adolescentes precisam e vocês estão ajudando.
dimitri   |189.82.59.xxx |2009-06-24 22:31:59
Muito bom artigo,só gostaria que vc falasse um pouco mais sobre o significado(caso exista) da pintura corporal Kadiwéu.
Lucas Dutra   |200.183.146.xxx |2009-06-24 22:33:16
Muito bom precisava fazer uma pesquisa escolar e achei oque queria parábens! Ate + !
sônia carvalho   |187.27.5.xxx |2009-07-27 20:29:39
material maravilhoso. parabéns por divulgar conteúdo de primeira linha
yuribittar   |SAdministrator |2009-07-27 20:33:01
Obrigado Sônia!
Anônimo   |189.59.103.xxx |2010-02-19 18:42:56
muito bom seu trabalho.precisei para uma pesquisa e esse material abrange tudo o que precisamos saber.
Elisa Priedols   |201.93.231.xxx |2010-03-16 14:40:24
Lindo trabalho, Yuri!
Como designer gráfica e agora estudiosa da cultura indígena, só tenho a agradecer a contribuição aos registros para que não se percam.
Parabéns!
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